Joël Pommerat

Descobriu a sua paixão pelo teatro na faculdade, mas foi depois de experimentar ser ator que percebeu que o seu lugar era mesmo atrás do palco. Hoje dramaturgo e encenador, Joël Pommerat, nascido em 1963, é um dos nomes mais sonantes do teatro francês contemporâneo — e, curiosamente, encena apenas textos próprios, nunca de outros dramaturgos. 

Em 1990, funda a Companhia de Teatro Louis Brouillard, que dirige até hoje. Em 2002, publica a sua primeira peça, intitulada “Pôles” (Polos), e, dois anos depois, o Strasbourg National Theatre convida-o a encenar e estrear a peça “Au monde” (No mundo). Este foi o momento de lançamento da carreira de Pommerat e da Companhia e o início da sua fama. A peça retrata a vida de uma família francesa: três filhas sentem-se aprisionadas pela autoridade do pai, que, apesar de velho, quase moribundo e cego, continua a ser extremamente severo. Dez anos depois, apresenta a mesma obra com quase todos os mesmos atores no Théâtre de la Monnaie, em Bruxelas, convidando Philippe Boesmans — com quem voltaria a trabalhar em 2017 — como compositor da banda sonora.

O seu trabalho frequentemente consiste na reescrita de fábulas e contos tradicionais, adaptando-os a teatro. No mesmo ano em que apresenta “Au monde”, estreia “Le Petit Chaperon Rouge” (O Capuchinho Vermelho), a sua primeira encenação direcionada ao público infantil. Nesta peça, o dramaturgo conjuga a fantasia da história original com a dura realidade de viver, e escreve a história de uma menina que vai a caminho da casa da avó, cruzando-se com um lobo, da forma mais fidedigna e real possível. 

Este não foi o único conto que Pommerat reescreveu. Em 2008, apresenta “Pinocchio” (Pinóquio) no Teatro Odéon, a história de uma pequena marioneta de madeira com um nariz que cresce a cada mentira, e que descobre o mundo através do sofrimento e da busca pelo sentido da vida. Em 2016, “Pinocchio” passou pelo Centro Cultural de Belém, marcando o regresso do dramaturgo a Lisboa, depois do Festival de Almada desse mesmo ano. Esta peça garantiu-lhe o Prémio Moliére para Melhor Espetáculo para o Público Jovem. Já em 2011, reescreve “Cendrillon” (Cinderela). 

Ainda nesse ano, colabora com o compositor Oscar Bianchi na adaptação para ópera da sua peça “Grâce à mes yeux” (Graças aos meus olhos), apresentada no Aix en Provence Opera Festival. Outra encenação relevante de Pommerat é “La Réunification des deux Corées” (A Reunificação das duas Coreias), que, mais do que uma representação política, é uma ode às relações humanas, pondo em causa as nossas emoções e confrontando o público com elas. 

Os jogos de luz e escuridão súbita, que deixam no espetador uma sensação desconcertante, e a ausência de adereços ou objetos em cena valem-lhe o apelido de “mágico do palco”. Através destes elementos, o encenador cria um teatro visual, que vai da maravilha ao medo, sem, necessariamente, a presença dos atores.

Em 2014, a convite de Philippe Quesne e Nathalie Vimeux, integra a Associação Théâtre Nanterre-Amandiers e, depois, organizações de renome em todo o mundo, como a Scène Nationale de La Rochelle, Comédie de Genève e o TNP/Théâtre National Populaire de Villeurbanne. Mais tarde, o artista e a sua Companhia associam-se ao DRAC Île-de-France e da Région Île-de-Franc, importante organismo cultural em França, com o apoio do Ministério da Cultura Francês. 

No contexto da Temporada Portugal-França 2022, Joël Pommerat apresenta “Ça ira (1) Fin de Louis”, entre os dias 28 e 30 de outubro, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Entre ficção e realidade, a peça inspira-se no processo revolucionário de 1789 para pensar a luta pela democracia e a motivação dos homens por novos sistemas, poderes e sociedades.

“Ça Ira (1) Fin de Louis” em apresentação no Theatre des Amandiers, 2015. © Elizabeth Carecchio


Maria Ana Vasco Costa

Seguindo a tradição portuguesa de azulejos monocromáticos, a artista idealiza e desenvolve intervenções cerâmicas, objetos esculturais e peças site-specific a partir do jogo entre azulejos tridimensionais e planos, criando novos padrões e composições originais.

Baseada em Lisboa, ostenta um diploma em Cerâmica e Belas Artes pelo Ar.Co Centro de Arte e Comunicação Visual, onde tornou-se co-diretora do departamento de Cerâmica, e um mestrado em Arquitetura pela Universidade Técnica de Lisboa. Em todos os seus trabalhos, questiona e põe em diálogo a produção tradicional de artesanato e a arquitetura nacional, uma combinação que sempre gera resultados singulares, embora tão facilmente reconhecidos com a sua assinatura.  

Maria Ana foi selecionada para o Mostyn Open 19, e, entre 2016 e 2018, venceu diversas vezes os prémios britânicos de Design, Surface Design Awards. Os seus trabalhos são expostos regularmente em Portugal e no estrangeiro, em mostras individuais ou coletivas: “Ice Ice Baby”, Appleton (2021); “Pitching yourself a tent were we all may enter”, Quetzal Art Center (2021), Vidigueira; “Água d’Alto”, Galeria Municipal de Almada (2019); “Veículo Longo”, Casa-Atelier Vieira da Silva (2019); “The Land of the Glazed Cities”, Imperial Palace, Beijing (2019); “Do presente para o futuro”, Museu do Azulejo, Lisboa (2018); “Portugal Tropical”, Merzbau Gallery, Miami (2016); “Primeira Escolha”, Museu José Malhoa, Caldas da Rainha (2016); “Mostyn 19 Agora”, Mostyn, Landudno, País de Gales (2015); “HD”, Espaço AZ, Lisboa (2014); e “ABECEDÁRIO – 40 Anos do Ar.Co”, Museu do Chiado, Lisboa (2013). Muitas das suas obras integram, também, coleções públicas e privadas, sendo a artista representada pela Galeria Jeanne Bucher Jaeger e pela Galeria Fonseca Macedo. 

No âmbito da Temporada Portugal-França 2022, a ceramista é convidada a construir uma peça de homenagem à Simone Veil, a ser revelada na cerimónia de encerramento.

 

Retrato em destaque: © Kenton Tatcher

Maria Ana Vasco Costa em trabalho.


Sandra Ribeiro

A missão do Fórum Igualdade é almejar por um mundo mais inclusivo. Qual a importância da sua integração no âmbito da Temporada Portugal-França 2022?

A Temporada Cruzada Portugal França 2022 é um evento extremamente importante para ambos os países, pois é uma enorme oportunidade de fortalecer laços entre instituições de diversas áreas e dar a conhecer o trabalho que é feito na área do ambiente, da sustentabilidade, da cultura. Ao ter sido decidido trazer a vertente da Igualdade para a temporada o que se quis foi transmitir uma forte mensagem de que quer Portugal, quer França, acreditam e estão comprometidos com a inclusão e com o combate á discriminação. Por isso se fez acontecer um Fórum Igualdade em Angers e agora teremos uma réplica em Guimarães. Porque a promoção da igualdade e a luta contra a discriminação não pode ser algo que se refere uma vez, é algo que tem que estar transversal em tudo o que fazemos e produzimos. Creio que é mesmo muito simbólico a realização destes dois eventos no âmbito da temporada cruzada. Sem igualdade não temos progresso sustentável. Não progredimos. E Portugal e França têm plena consciência e querem continuar a ser vozes ativas nesta demanda na União Europeia.

 

O que significa esta troca de ideias que promovem a igualdade de género e a inclusão, entre dois países com laços tão fortes, diante da agitação política e social que se vive atualmente?

Significa o empenho e o compromisso de que o tema da igualdade é considerado fulcral na política interna e externa, quer para Portugal, quer para França. Não é algo lateral e do universo do politicamente correto. É algo que ambos os Governos dos dois países levam a sério e faz parte integrante das suas políticas públicas. E num momento como o atual, este tipo de tomada de posição pública é ainda mais importante, pois posiciona claramente ambos os países, sem qualquer espaço para ambiguidades, do lado daqueles que não toleram a discriminação e combatem as desigualdades, sempre, em qualquer circunstância.

 

Neste Fórum, de que forma se pretende transmitir ao público os valores que defende? Que resultados ou ações concretas gostaria que resultassem desta ocasião?

Enquanto Presidente do Serviço Público que nacionalmente tem por missão a promoção da igualdade e o combate à discriminação, e tendo em conta os dados que nos chegam da não diminuição das situações de violência de género, nomeadamente sobre as mulheres, a minha maior ambição é que se consiga transmitir um compromisso claro no sentido de combater a violência doméstica fortalecendo o trabalho de prevenção, começando o mais cedo possível o trabalho de sensibilização e informação nas escolas. É um problema endémico, que atravessa toda a sociedade e que temos que conseguir combater de forma eficiente. Acredito que através da educação poderemos, se atuarmos de uma forma cada vez mais sistemática e insistente, ajudar a que os jovens de hoje a combaterem connosco este flagelo.

 

Em que sentido a transversalidade da luta pela igualdade de género pode inspirar na defesa por outras causas e direitos?

Diria que tudo depende da nossa capacidade para comunicar e para conseguir transmitir de forma acessível que as questões de igualdade estão de facto em tudo aquilo que fazemos.
Por exemplo, o mundo da arte está intrinsecamente relacionado e dependente do funcionamento da sociedade. As desigualdades entre homens e mulheres no mundo das artes ainda é uma realidade, como o é na sociedade em geral. E estas diferenças notam-se, se tivermos as lentes da igualdade para olhar, desde a conceção e produção de uma obra de arte até à comercialização da mesma, passando pelas leituras e interpretações do público.
Se conseguirmos acordar mais as pessoas para estas evidências, que são transversais em todas áreas económicas e sociais, acredito que poderemos inspirar a grandes mudanças. E as mudanças vão acontecendo, o problema é que o ritmo dessa mudança tem sido particularmente lento.

 

Enquanto Presidente da CIG, gostaria de voltar a colaborar com instituições francesas, no combate pela inclusão e igualdade?

Com toda a certeza. Tem sido uma experiência muito enriquecedora. Queremos definitivamente continuar a fazer trabalho em conjunto. Os nossos problemas são muito parecidos, por isso a nossa potencialidade para trocar informações e boas práticas e traçar estratégias conjuntas é quase infinita.


Agnès Saal

A missão do Fórum Igualdade é almejar por um mundo mais inclusivo. Qual a importância da sua integração no âmbito da Temporada Portugal-França 2022?

O encontro que terá lugar em outubro segue-se a uma primeira e emocionante reunião que teve lugar em Angers em março passado: durante estes dois momentos de intercâmbio e partilha de experiências em torno das questões de igualdade e inclusão, os parceiros da Temporada Portugal-França querem destacar a importância destes temas, que fazem parte da longa história da Europa.

De facto, os eventos culturais que pontuam a Temporada tomam todo o seu significado se forem lidos à luz de uma exigência de recusa de qualquer tipo de discriminação.

 

O que significa esta troca de ideias que promovem a igualdade de género e a inclusão, entre dois países com laços tão fortes, diante da agitação política e social que se vive atualmente?

É precisamente numa altura em que a Europa está de novo em guerra, em que a ameaça de catástrofe climática se torna tangível, em que a intolerância racial e religiosa reclama vítimas, em que os direitos das mulheres e das minorias estão a ser postos em causa em muitas partes do mundo, que se deve afirmar – com maior vigor – que a igualdade entre mulheres e homens, e a promoção e o respeito pela diversidade, não são objeto de debate.

Além disso, desde o início que estávamos interessados em ir além do quadro bilateral franco-português, a fim de afirmar esta mensagem, associando vários outros países membros da União Europeia aos nossos intercâmbios.

Estes são valores democráticos que partilhamos, que são preciosos e essenciais!

 

Neste Fórum, de que forma se pretende transmitir ao público os valores que defende? Que resultados ou ações concretas gostaria que resultassem desta ocasião?

Trata-se de dar a palavra àqueles que promovem políticas concretas, nomeadamente nos domínios da educação, cultura e defesa dos direitos das mulheres, a fim de provar que estas ações permitem melhorar significativamente a situação e alcançar uma verdadeira igualdade, no acesso aos lugares de responsabilidade, aos meios de criação e produção, na igualdade salarial, na luta contra a violência sexual, na desconstrução de estereótipos, etc.

Gostaríamos que a situação mais favorável num país europeu, a política de igualdade mais eficaz numa área, fosse alargada a tantos outros setores e países quanto possível: o exemplo é uma poderosa alavanca, capaz de convencer e liderar!

 

Em que sentido a transversalidade da luta pela igualdade de género pode inspirar na defesa por outras causas e direitos?

Estou convencida de que a luta pela igualdade entre mulheres e homens contém as sementes de todas as batalhas contra a discriminação. Quer seja idade, deficiência, origem étnico-racial, orientação sexual, vulnerabilidade económica e social, ou local de residência, entre os critérios mais generalizados de discriminação, a abordagem é idêntica: compreender e conhecer as causas da exclusão, documentá-las e quantificá-las com precisão, e adotar uma abordagem organizada e determinada que permita a sua erradicação (plano de ação, indicadores de progresso, etc.).

 

Enquanto Alta Comissária para Igualdade, Diversidade e Prevenção da Discriminação, gostaria de voltar a colaborar com instituições portuguesas, no combate pela inclusão e igualdade?

Eu adoraria! Esta experiência partilhada, que nos permitiu trabalhar em conjunto sobre estas questões durante mais de um ano, revelou uma tremenda convergência, uma verdadeira identidade de pontos de vista e um desejo comum de ir mais longe e mais depressa no caminho para a igualdade e a inclusão. França e Portugal, juntamente com outros países europeus, têm vocação para desempenhar um papel motor, para dar impulso, inspiração e inovação, de modo a impor uma cultura de igualdade e prevenção da discriminação em todas as áreas. Há ainda um longo caminho a percorrer…


Amarante Abramovici

Qual a importância do programa “A Questão Colonial” estar inserido na programação da Temporada Portugal-França?

Desde a sua génese, a retrospectiva “A Questão Colonial” procura reflectir, com e através do cinema, sobre os modos como as histórias recentes dos dois países se cruzam e, em particular, a descolonização do continente africano a partir dos anos 1950. Desde logo, a coincidência temporal entre o fim de Guerra da Argélia e o início da Guerra Colonial portuguesa há sessenta anos, mas também a subsequente vaga da emigração portuguesa para França, em larga medida motivada pela guerra, e que ainda hoje marca as vivências das comunidades nos dois países.
Essas relações na verdade concretizam-se depois no corpo dos próprios filmes, com o interesse e a solidariedade que levam cineastas Franceses, como Jean Rouch, Mario Marret, Marceline Loridan-Ivens ou Bruno Muel a filmar as lutas pela independência nos países lusófonos. E há a posição muito particular de Argel neste contexto, capital da Argélia livre que rapidamente se torna refúgio de exilados, ponto de encontro dos actores políticos da descolonização, como vemos no filme Alger, Capitale des Révolutionnaires, co-realizado por Gordian Troeller e Marie-Claude Deffarge, mas também dos cineastas que constroem a memória desse movimento.

 

Enquanto curadora desta retrospetiva de cinema francês e português, como foi cruzar a diversidade destas duas representações cinematográficas para as mostrar aos espetadores no Doclisboa?

Antes de ser curadora, sou eu própria franco-portuguesa, e esta dupla história, revisitada aqui pelo cinema, é fundamental na minha construção pessoal. Curiosamente, os meus pais conheceram-se em 1975 no Porto, quando o meu pai, Francês regressado uns anos antes de um périplo solitário em África que terminara abruptamente em Brazzaville, devido à Guerra de Angola, decidiu passar por Portugal e perceber o que estava a acontecer desde o 25 de Abril. Rapidamente formaram o projeto de partir para Angola e voluntariar-se para as campanhas de alfabetização do MPLA. As dificuldades em conseguir os documentos necessários para o casamento e a viagem acabaram por ditar a sua permanência na Europa, quando Angola, então a braços com a guerra civil, fechou as fronteiras por questões de segurança. Desse sonho abortado nasceu outro, de fundar família, de que sou o primeiro fruto.

A necessidade, premente, de repensar este passado francês e português, mas sobretudo angolano, moçambicano, guineense, argelino, maliano, senegalês, enfim, Africano, é hoje evidente, não sou só eu que o digo, pois esse movimento ganhou visibilidade e atinge todas as camadas da sociedade. Premente também pelo evidente crescimento de vozes, movimentos e políticas negacionistas na Europa, que nos obriga a assumir um papel activo na preservação, divulgação e discussão pública destes filmes.

 

Nesse cruzamento, como decorreu o processo de seleção de filmes para este ciclo?

A seleção de filmes foi sobretudo uma descoberta. Partindo de um núcleo relativamente pequeno de filmes e autores, fui pesquisando e sobretudo construindo um diálogo com investigadores e programadores que se debruçam sobre estas cinematografias. As redes de solidariedades, que no passado permitiram que se fizessem muitos dos filmes que mostramos, repetem-se hoje para permitir que sejam vistos. Os filmes que mostramos nesta retrospectiva, realizados contra a corrente – contra a corrente do sistema colonial e neocolonial, mas sobretudo contra as lógicas de dominação cultural no cinema, contra o mercado dos filmes ou dos autores e em luta pela existência dos novos cinemas africanos e transcontinentais.

O programa vai ao encontro da diversidade dos gestos dos cineastas que confrontaram a história das (des)colonizações, seja um René Vautier nos maquis argelinos ou um Abderrahmane Sissako em busca do seu próprio passado na figura de um amigo angolano de quem perdeu o rasto desde os tempos de estudante na URSS, ou ainda Ruy Guerra, bem próximo do novo poder moçambicano e de Samora Machel, fazendo o processo dos colaboracionistas do antigo regime, ou mesmo Assia Djebar reconstruindo num canto poético a história moderna do Magrebe a partir de imagens de arquivo.

Vai também ao encontro – e foi essa aventura que me motivou – ao encontro de uma “outra” história do cinema, uma história que começa quando a liberdade se conquista, e é essa a história de Cabascabo, o primeiro filme de Oumarou Ganda que, depois de ser fuzileiro na Guerra da Indochina, estivador no porto de Abidjan e actor em Moi, un Noir de Jean Rouch, realizará o seu filme no Níger com a ajuda do Cineclube de Niamey. Ou a história do artista António Ole, que realiza Carnaval da Vitória no primeiro ano da independência angolana. Ou do já citado poeta e cineasta Ruy Guerra, que regressa a Moçambique para filmar o nascimento da nova nação, as suas feridas e contradições.

Essa história plural e frágil – ou antes fragilizada pelo esquecimento, o abandono, a falta de meios… – que há já duas décadas Margarida Cardoso esboçava em Kuxa Kanema, a história de um cinema que queria devolver ao povo a imagem do povo.

 

Sobre o passado colonial de França e Portugal, o cinema tem o poder de contar a verdade e de furar a censura?

Em tempos a censura do Estado Novo, mas também a lei Laval em França, que perdurou muito além da Segunda Guerra Mundial e foi particularmente dura com o cinema que contestava o regime colonial e silenciou ou forçou à clandestinidade muitos filmes, dos quais destacamos Afrique 50, de René Vautier, obra que levou inclusive à prisão do autor, ou Catembe, de Manuel Faria de Almeida – que partia de uma encomenda mas acabou por se tornar o filme português mais “cortado” pelos censores.

Mais tarde, outras formas de censura, política e de estado, ou mais insidiosas – de ordem económica por exemplo – foram-se exercendo sobre os cinemas africanos, ao sabor das crises políticas que as novas nações sofreram e ainda hoje sofrem.

Actualmente, o cinema luta contra o tempo e a falta de meios. Os filmes degradam-se, os processos de preservação e arquivo são morosos, caros e sujeitos à constante necessidade de adaptação aos novos formatos de exibição – sem o que correm o risco de se tornar arquivos “mortos”. Emblemática será nesse sentido a exibição de Nossa Terra, o filme realizado por Mario Marret nas zonas libertadas da guerrilha do PAIGC, desaparecido durante décadas e só agora reencontrado nos arquivos da Newsreel em Nova Iorque. O filme é aliás apresentado com as obras em parceria de Sónia Vaz Borges e Filipa César, cujo trabalho de criação se vêm articulando com o resgaste de filmes perdidos do início do cinema da Guiné-Bissau, como é o caso da seminal obra colectiva O Regresso de Amílcar Cabral, ou dos registos das escolas-piloto mostrados em Navigating the Pilot School. No caso das cinematografias africanas, a situação geral dos filmes e da sua conservação é mesmo muitíssimo mais grave, e dificilmente se resolverá sem um justo gesto de reparação histórica.

Enfim, eu diria que furar a censura não é algo que ocorre num único tempo ou lugar, é um trabalho e uma luta travada por cineastas, técnicos, arquivistas, programadores, críticos e espectadores, em todas as sessões e todos os debates, em todos os momentos em que os filmes acontecem.

 

De que forma prevê a continuidade das relações entre França e Portugal na arte e na história?

A relação entre Portugal e França é, do meu ponto de vista, corporizada sobretudo pelos milhões de Portugueses que vivem em França, cujo legado político e cultural é sistematicamente ignorado dum lado e doutro dos Pirinéus. Exemplo dessa lacuna é seguramente a falta de reflexão acerca da Ditadura e da Guerra Colonial como motivos políticos de uma migração que, ainda hoje, se opta por qualificar de «económica». Quanto à relação entre francófonos e lusófonos, um território porventura ainda mais entusiasmante pela sua extraordinária riqueza e pela promessa que nela se adivinha, passará certamente pela abolição de barreiras fronteiras que fazem da Europa uma fortaleza envelhecida e decadente e condenam a humanidade à repetição dos mesmos erros. É esse sonho
internacionalista que me anima, entre muitas outras pessoas e filmes, como em 7 cortes de cabelo no Congo, o filme que, sem sair de uma salão de cabeleireiro, atravessa tempos e oceanos de Luciana Bezerra, Pedro Rossi e Gustavo Melo e já habitava os estudantes africanos em Paris de Afrique sur Seine, de Paulin Soumanou Vieyra e Mamadou Sarr em 1955.

 

A curadora Amarante Abramovici não escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990.


Magali & Manuel

Neste verão, a Temporada Portugal-França 2022 irá destacar os laços de amor que unem a França e Portugal.

São um casal franco-português e gostariam de se juntar à aventura Portugal-França 2022, acrescentando o seu retrato à nossa grande galeria?

Conte-nos aqui a sua história de amor!


Susana & Jeremy

Neste verão, a Temporada Portugal-França 2022 irá destacar os laços de amor que unem a França e Portugal.

São um casal franco-português e gostariam de se juntar à aventura Portugal-França 2022, acrescentando o seu retrato à nossa grande galeria?

Conte-nos aqui a sua história de amor!


Isaura & Éric

Neste verão, a Temporada Portugal-França 2022 irá destacar os laços de amor que unem a França e Portugal.

São um casal franco-português e gostariam de se juntar à aventura Portugal-França 2022, acrescentando o seu retrato à nossa grande galeria?

Conte-nos aqui a sua história de amor!


Joaquim Pinheiro

Qual a importância do projeto IMAGINE! estar inserido na programação de Temporada Portugal-França?

O projeto IMAGINE! resulta de um convite do FITE para um trabalho de parceria relevando vários temas em comum estratégicos para a bienal Contextile: desenvolvimento de projetos no âmbito da arte têxtil contemporânea; ligação entre territórios de cultura têxtil; 10 anos de existência; ligação entre duas cidades, Guimarães e Clermont-Ferrand, uma antiga capital europeia de cultura, e uma candidata para 2028. E para a bienal Contextile, que nasceu e integrou a programação da Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, estas conexões são queridas nas nossa missão e estratégia.

 

Neste intercâmbio entre a Contextile – Bienal de Arte Contemporânea e o FITE – Festival International des Textiles Extraordinaires, como se processa a implementação do projeto, nomeadamente, em Guimarães e junto do público português?

Dez anos volvidos, e já com 5 edições realizadas, a bienal Contextile é, reconhecidamente, uma referência internacional no âmbito da arte têxtil contemporânea. Mas é também, um acontecimento cultural e artístico ímpar, que transforma Guimarães, e a região do Vale do Ave, no epicentro de um processo de interação e ligação entre artistas, criadores, comunidades, indústria e territórios, contribuindo assim para os processos de reforço da identidade do lugar, incentivo à criatividade e inovação e valorização da cultura têxtil. Assim, a implementação das várias atividades torna-se mais fácil junto da EAAD – Universidade do Minho, das Empresas Têxteis, da comunidade vimaranense e região. Em particular junto dos Centros de Arte e Museus, que acolhem este projeto – o Paço dos Duques em especial – e o Município de Guimarães que, mesmo com as dificuldades ainda resultantes da pandemia, abraçou este projeto.

Em que se traduz esta programação cultural conjunta e cruzada?

A programação foi pensada em forma de espelho, ou seja, as mesmas ações nas duas cidades, Guimarães e Clermont-Ferrand, enquadrando dinâmicas já existentes em cada cidade e região, agora num quadro cultural e identitário diferente. 

Realizamos visitas de trabalho em Clermont-Ferrand e os nossos amigos franceses em Guimarães. E, mesmo com as naturais diferenças, pensamos em ações que melhor cruzassem as diferenças culturais e artísticas, para daí resultarem a troca de ideias, conhecimento e o saber fazer.

Projetamos uma exposição com 10 artistas franceses em Guimarães, e uma exposição com 10 artistas portugueses em Clermont-Ferrand; residências artísticas nas duas cidades, em simultâneo; e um trabalho de intercâmbio entre Escolas de Artes de Guimarães e Clermont-Ferrand.

Expressar novos imaginários para o amanhã é o tema proposto pelo projeto IMAGINE!. Qual é o futuro do setor têxtil?

O têxtil português está muito forte a nível internacional, pois tem investido na inovação, na tecnologia e na criatividade. E o seu futuro passará pela aposta na sustentabilidade, através da reciclagem, novas fibras, fibras naturais. A Contextile, ainda em micro, tem sabido, pouco a pouco, contribuir para este desafio, em parceria com a comunidade e a indústria têxtil.

No futuro, gostaria de voltar a colaborar com entidades francesas na criação de intercâmbios?

Sim. Este projeto vai deixar marcas profundas na relação entre a Contextile e o FITE, bem como entre as cidades de Guimarães e Clermont-Ferrand.


Isabel Domingos

O Fórum Oceano alerta sobre o papel do mar na vida e no futuro de todos. Qual a importância de estar inserido na programação da Temporada Portugal-França?

Existe nos dias de hoje uma consciencialização, por parte do público em geral, da importância do Oceano em termos de desenvolvimento económico e bem-estar humano numa perspetiva de curto, médio e longo prazo, bem como de algumas ameaças que recaem sobre o meio marinho e podem acarretar perdas a nível dos serviços do ecossistema que o oceano nos fornece. Os media, juntamente com a comunidade científica, têm desempenhado um papel crucial na divulgação deste potencial e dos seus constrangimentos, juntamente com soluções que garantam uma exploração sustentável dos respetivos recursos. Contudo, a emergência das temáticas do Oceano exige uma abordagem holística que integre todos os setores e atividades ligados ao mar.

Portugal e França são países com longa tradição marítima e o facto de se ter incluído a temática Oceano e Sustentabilidade num dos eixos da temporada Portugal-França, é revelador do compromisso que ambos os países assumem na importância que atribuem ao mar. O Fórum Oceano, inserido na programação da temporada, irá permitir aproximar os dois países através da partilha de conhecimento científico e de experiências, num encontro promovido em torno das principais temáticas da atualidade. Para além de reforçar o relacionamento científico e cultural entre os dois países, este evento é uma excelente oportunidade para consolidar a ligação e a colaboração entre investigadores de diversas áreas das ciências do mar e instituições de ambos os países, que participam no evento.

O futuro passa pela união e pela cooperação científica e diplomática entre países, como acontece neste fórum, com instituições portuguesas (MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente) e francesas (Institut de l’Océan de l’Alliance Sorbonne Université), num assunto tão delicado como o oceano? 

A cooperação científica e diplomática entre países é efetivamente vital no esforço conjunto de preservar o Oceano e, ao mesmo tempo, continuar a explorá-lo. Este é o enorme desafio que enfrentamos para os próximos anos. Tendo em conta as obrigações dos países em termos de soberania no meio marinho, a vastidão deste meio e o desconhecimento que ainda existe sobre o mesmo em diversas áreas geográficas e domínios do saber, será necessário um elevado esforço financeiro e de formação de recursos humanos especializados. Neste contexto, ações isoladas dificilmente serão eficazes para responder a este desafio global.

O conhecimento científico é imprescindível para a conservação e restauro dos ecossistemas marinhos e para o desenvolvimento de uma Economia Azul que se pretende sustentável. A cooperação que se estabelece entre as instituições envolvidas na organização do Fórum Oceano é um elemento-chave para atingir objetivos comuns e reunir sinergias, de modo a otimizar esforços e recursos humanos e financeiros. Este é o caminho a seguir para resolver os problemas que enfrentamos na atualidade.

De que forma pretendem chegar ao público e incutir-lhe os desafios de valorização dos recursos do oceano, através deste fórum?

Trazer para as luzes da ribalta questões da atualidade, que são vitais para a sobrevivência do planeta e o bem-estar da Humanidade, encerra um enorme potencial para cativar e envolver os cidadãos, constituindo uma mais-valia na sensibilização do público, para as questões do Oceano. Divulgar o conhecimento científico e as lacunas existentes e confrontar experiências sobre diversas matérias relativas à exploração dos recursos do oceano e à sua salvaguarda, são a génese do Fórum Oceano. Este fórum aborda os objetivos e os rumos para um futuro comum, inovador e, acima de tudo, mais sustentável.

O formato do evento, que beneficiará de tradução simultânea Francês/Português, inclui conferências e mesas redondas seguidas de debate, de modo a promover a participação de todos. O evento estará aberto ao público em geral, que poderá participar presencialmente e intervir durante os debates, podendo ainda ser seguido ao vivo, via streaming. Os conteúdos a abordar incluem aspetos relacionados com a importância do Oceano para a Humanidade, as lacunas de conhecimento existentes, a necessidade de o estudar e preservar, e o papel que os cidadãos deverão ter nestas ações. As mesas redondas serão conduzidas por investigadores e outros, que sensibilizarão um público não especializado para a diversidade de questões e desafios partilhados no Atlântico. O evento será ainda gravado em vídeo, para atingir uma mais ampla divulgação.

Defende que uma visão unificada permite promover e ampliar a capacidade de atuação de outras áreas, na conservação, defesa e gestão do oceano?

A visão unificada sobre o oceano global é necessariamente a de um oceano saudável, único garante da vida no nosso Planeta. Uma das cinco missões da UE, “Missão Estrela-do-mar 2030”, tem como objetivo geral restaurar o nosso oceano e as águas europeias até 2030, o que só será possível com a participação de todos. A união de todos
em torno de um objetivo comum, capaz de reverter o declínio da saúde dos oceanos é crucial para o nosso futuro. Só assim poderemos continuar a usufruir dos serviços que o oceano nos presta e que são vitais para a sobrevivência da vida no planeta.

A identificação de problemas e oportunidades comuns, num ambiente de partilha de conhecimento científico e troca de experiências é, sem dúvida, uma mais-valia que pode e deve ser transferida para a sociedade, em diversas áreas, de modo a capacitá-la a conservar, defender e gerir o oceano de forma sustentável. Neste contexto, e tendo em conta a diversidade de temáticas abordadas no Fórum Oceano, quer na edição realizada em Paris no passado mês de março, quer na edição a realizar em setembro em Lisboa, será possível trazer para debate questões que são do interesse de todos e que contribuirão para esse objetivo.

Enquanto investigadora do MARE, gostaria de voltar a colaborar com instituições francesas, na preservação do Atlântico?

Certamente que sim, e não apenas enquanto investigadora do MARE. Como professora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e coordenadora do mestrado em Ecologia Marinha, gostaria de sublinhar o potencial interesse desta colaboração na formação avançada.

A colaboração com instituições francesas na preservação do Atlântico pode igualmente ser feita a nível académico, já que as universidades são locais de excelência onde se faz a ponte entre ensino e investigação constituindo, ainda, uma importante fonte de divulgação do conhecimento científico, para o público em geral. Para além de fortalecer laços já existentes entre alguns investigadores e instituições de ambos os países, o Fórum Oceano, permite, ainda, identificar interesses comuns e encetar novas colaborações, que espero possam vir a dar frutos num futuro muito próximo. Estas colaborações poderão ser materializadas através da concretização de projetos comuns, e do intercâmbio a nível de estudantes de mestrado e/ou doutoramento.