O Anozero’21-22 – Bienal de Arte Contemporânea quer libertar-se do pensamento dualístico e das narrativas modernas que dividem a contemporaneidade e geram uma sobreposição de discriminações como racismo, classismo, sexismo ou ableísmo. A partir de um conjunto de metodologias que ajudarão a experimentar formas criativas, não convencionais e marginais de produção de conhecimento, as curadoras Filipa Oliveira, portuguesa, e Elfi Turpin, francesa, desafiam um grupo de artistas a partilhar as suas ferramentas críticas, que multiplicam e desconstroem mundos, que consideram inclusividade e invisibilidade, empatia e generosidade. A Temporada Portugal-França conversou com ambas, em exclusivo, sobre esta edição da Bienal.

Qual a importância da integração do Anozero – Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra na programação da Temporada Portugal-França?
A criação de redes internacionais é uma condição fundamental para o fortalecimento da Bienal. A articulação entre o Anozero e a Temporada Portugal-França acelera o cumprimento deste objectivo ao fortalecer uma rede entre Portugal e França já iniciada nas edições anteriores, o que se concretiza numa forte presença de artistas naturais ou residentes em França.

A Meia-Noite é o tema desta edição da Bienal, em dois momentos. Nesta segunda parte, de que forma a noite se torna num espaço de encontro de inquietação entre linguagens artísticas e se reflecte nas obras apresentadas?
A noite é para nós um espaço de transgressão. Aí, experimentamos a possibilidade de fugir à regra, aos limites impostos pelas normas do dia-a-dia. Pensámos na noite quase como um universo oblíquo, um lugar com uma pulsão e uma energia inexplicáveis, marcado por um sentimento de urgência, definido por situações que estão permanentemente na iminência do desvio. A noite é aqui um lugar onde a alucinação coabita com o racional, onde diferentes ordens de pensamento e do sentimento convivem. Convidámos um grupo de artistas e convocamos uma série de obras que de diferentes maneiras dão corpo a estas questões.

Em Coimbra, como é que uma bienal com uma visão feminista e anti-discriminatória se traduz na cidade?
Traduz-se de várias formas, desde gestos maiores como na escolha dos artistas até mais pequenos e invisíveis. Um projeto da escuta, da atenção ao outro; um projeto que tenta desfazer autoritarismos, em especial das curadoras; que usa o diálogo, o cuidado e o questionamento como ferramenta. Para nós a bienal é uma proposta conceptual e artística cujo intuito não é o de propor uma teoria, uma visão, mas antes procurar abrir a possibilidade de instigar uma sensibilidade para olharmos para as situações de forma um pouco diferente.
A Bienal dá visibilidade também a um forte movimento feminista já existente na cidade, tanto de artistas como de instituições da Academia.

De que forma os princípios da Temporada (a democracia, a igualdade de género, a inclusão, o respeito pela diferença) estão presentes nas obras dos mais de 40 artistas, na Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra?
Acreditamos que a curadoria deve ter uma agenda política e que é sua responsabilidade desafiar as assunções, nivelar as hierarquias, promover as margens, amplificá-las, através de estratégias de resistência que promovam o debate e que propaguem novas formas de conhecimento. Assim, no imaginário curatorial desta bienal, usamos os óculos feministas, o que significa des/ordenar, des/aprender, inter/vir e trabalhar de uma forma inter/disciplinar, por forma a contrapor às estruturas de dominação outras possibilidades e visões de futuro.

Que luz é essa com que o Anozero, à Meia-Noite, quer iluminar a escuridão?
Na nossa visão do Anozero não queremos iluminar nada, o que propomos é que aprendamos juntos a ver no escuro.

Como é que duas visões, uma francesa e outra portuguesa, se encontram na curadoria desta bienal?
Nós as duas já trabalhámos juntas várias vezes. As nossas visões curatoriais, e do mundo, são muito próximas e não se unem ou afastam tendo em conta as nossas nacionalidades, mas aproximam-se por uma sensibilidade, visão do mundo e amor pela arte que partilhamos.