Feminista, cineasta, fotógrafa, artista plástica e visual, ícone de moda: Agnès Varda é um destes nomes que irão ecoar por incontáveis décadas. Com uma cinematografia autoral, pessoal e sempre política — embora manifestada com a maior delicadeza —, abriu o seu próprio caminho num universo marcadamente masculino e machista. No seio do renascimento do cinema e da cinefilia francesa, durante os anos 1950, não só se afirma como expoente da Nouvelle Vague, ao lado de grandes nomes como Jean-Luc Godard, François Truffaut e Alain Resnais, como funda uma linguagem própria, original, tão ou até mais ousada do que os seus colegas de geração. Como eles, Varda foi uma cineasta incansável, que viveu a sua paixão pela arte e permaneceu criativa, e em produção, até à morte. 

Belga radicada em França, nasce em 1928 e estuda Fotografia na Escola de Belas Artes de Paris. Aos 21 anos, desembarca com a sua câmara fotográfica no Festival de Avignon, o mais antigo festival de artes da França e um dos maiores do mundo, do qual passa a ser fotógrafa oficial, dois anos depois. Em pouco tempo, experimenta transformar as imagens estáticas em imagens em movimento — embora um olhar fotográfico jamais a abandone durante toda a sua carreira. Ao fazer um filme, Varda assume a câmara, o roteiro, a edição e a produção. Ainda assim, é impossível dizer que as suas obras são estatutos autobiográficos ou autocentrados. A escuta atenta e a sensibilidade no contato com o outro — pessoa ou personagem — são os aspetos mais importantes e evidentes no cinema implicado de Agnès Varda, que articula a ética e a estética como ninguém.

Entre os clássicos que assina, e que ficaram conhecidos por suas estruturas e narrativas ao mesmo tempo simples e complexas, críticas e gentis, estão “La Pointe Courte” (1955), a sua longa-metragem de estreia; “Duas horas da vida de uma mulher” (1962), eleito Melhor Filme do Ano pelo sindicato dos críticos franceses; e “A Felicidade” (1965), vencedor do Prémio Especial do Júri no Festival de Berlim. Depois de dirigir Catherine Deneuve em “As Criaturas” (1966), Varda e o marido, o também cineasta Jacques Demy, mudam-se para Los Angeles. Lá, mergulha no espírito de revolta da contracultura e redescobre-se como documentarista, registando os Panteras Negras, a revolução cubana, a guerra do Vietnam e o movimento feminista.

Só retorna ao cinema de ficção em 1977, com “Uma Canta, a Outra Não”. Em 1985, realiza “Os Renegados”, o drama de uma jovem andarilha encontrada morta numa vala, que lhe rende o Leão de Ouro no Festival de Veneza. O desaparecimento do companheiro, em 1990, inspira um dos seus filmes mais belos, “Jacquot de Nantes” (1991), baseado na infância e juventude de Jacques Demy. Depois de “Les cent et une nuits” (1995), um híbrido de ficção e documentário, afasta-se dos atores para filmar apenas pessoas “reais”, como os trabalhadores rurais e cantoneiros em “Os Respigadores e a Respigadora” (2000).

Agnès Varda torna-se a primeira diretora a receber um Óscar honorário, 2017. Foto: Invision/AP/REX/Shutterstock.

Em “As Praias de Agnès” (2008), começa a tratar do seu legado, revendo cenas e lugares importantes da sua vida — e conquistando um conjunto de prémios, em diversos festivais, pela plasticidade com que descreve essa jornada. Em 2017, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos ofecere-lhe um Óscar honorário pelo seu corpo de trabalho e contribuição para a sétima arte — um troféu que guarda, carinhosamente, na sua cozinha. Afinal, fazer cinema é como cozinhar: com poucos ingredientes pode-se fazer fartura, e requer cuidado e afeto.

 “Musa Pioneira. Ícone. Uma mulher que lançou um movimento de cinema” são as palavras com que John Bailey, o presidente da Academia, a apresenta. Em 2018, retorna à premiação com “Visages, Villages”, a concorrer ao Óscar de Melhor Filme Documentário. Aos 89 anos, torna-se, assim, a pessoa mais idosa a ser indicada em qualquer categoria competitiva do mais importante prémio da indústria cinematográfica mundial. 46 dias antes de desaparecer, na sua última entrevista coletiva no Festival de Berlim 2019, diz: “Preciso de me preparar e encontrar a paz necessária para o adeus”. No seu testamento poético, deixa-nos um cinema reinventado, com menos julgamentos e mais humanidade. 

 

Foto em destaque: © Alaisdair McLellan