A Temporada Portugal-França entrevistou Mark Deputter, presidente e diretor artístico da Fundação Culturgest.

O Mark já dirigiu vários projetos e instituições responsáveis por muita criação contemporânea, nomeadamente, em Portugal. Da sua perspetiva enquanto diretor artístico e programador, que importância atribui a uma iniciativa com as características da Temporada Portugal-França: juntar dois países, promover a cooperação, reforçar laços e unir objetivos comuns?

A colaboração artística e cultural internacional é uma realidade enraizada no mundo globalizado em que vivemos hoje em dia. Artistas, programadores e curadores funcionam com naturalidade neste contexto internacional e os públicos mostram interesse no que acontece noutras partes do mundo. Também ao nível das instituições existe uma forte dinâmica de intercâmbio e colaboração, como demonstra, por exemplo, a importância de vários programas europeus que apoiem a internacionalização e a cooperação.
A Temporada Portugal-França reforça a criação de laços além-fronteiras e tem uma importância inestimável, pois não só apoia uma dinâmica existente, como também convida a ir mais fundo e mais longe na relação bilateral entre dois países que têm muito em comum e muito para dar um ao outro. A Temporada cria uma oportunidade única para fortalecer ligações culturais e civilizacionais que existem há séculos.
Sempre acreditei na importância das parcerias internacionais na cultura. Só assim conseguiremos melhorar a nossa compreensão de outras realidades e aprofundar a tão necessária empatia com os outros. Hoje em dia, não há nenhum tema que possa ser pensado e discutido sem ter em conta a dimensão global e não há nenhum problema de relevo que possa ser resolvido sem a participação de todos, onde quer que vivem na terra. Encontrar o Outro tornou-se um desígnio não só cultural, como também ético e político.

O projeto “[terrain]” aponta para a colaboração entre bailarinos profissionais e quem queira participar, numa iniciativa que decorre a céu aberto, no espaço público. Acha importante as artes permitirem cada vez mais a abertura à comunidade?

A beleza do projeto “[terrain]” é a sua generosidade e a sua vontade de partilhar a dança com todos. No projeto, o coreógrafo Boris Charmatz reconhece que a dança é uma profissão, que requer dedicação por parte de um grupo muito diverso de profissionais, mas também que é possível e necessário abrir esta forma de arte à participação por parte de não profissionais. O projeto “[terrain]” convida todos a participar. Todos temos um corpo e todos temos a capacidade e a necessidade de nos mexer. A dança é provavelmente uma das atividades humanas mais ancestrais e essenciais.
Ao colocar a prática de dança radicalmente no espaço público, no centro da cidade, o projeto reforça a vivência da dança como uma atividade acessível a todos, sem barreiras culturais, sociais ou físicas. Pessoalmente, acho este gesto de abertura e inclusão essencial. A arte contemporânea nem sempre é de fácil acesso, pois tende a ir por caminhos novos que as pessoas ainda não experimentaram, apresentando propostas inusitadas que podem causar estranheza ou, pior, uma recusa total. Existem muitas maneiras para encurtar a distância entre a criação contemporânea e o público, mas a mais eficaz será provavelmente a participação ativa, porque a participação apela a todas as faculdades do ser humano, a capacidade intelectual, a atividade motora, a intensidade emocional. A participação é uma forma holística de pensar e viver a relação entre a arte e a vida.

Como caracteriza a sinergia entre a Culturgest e a Temporada Portugal-França neste projeto? O que pode esta colaboração significar para os seus projetos futuros?

A parceria com a Temporada Portugal-França deu-nos a oportunidade de realizar um projeto com que sonhamos há muito, baseado numa parceria real entre artistas franceses e portugueses. O elenco que irá instalar-se na Alameda Dom Afonso Henrique durante duas semanas é constituído por 7 bailarinos franceses e 8 bailarinos portugueses (selecionados através de uma open call para a qual recebemos duzentas candidaturas), que vão trabalhar juntos na criação de uma apresentação final. Para além da sua presença imediata para o público lisboeta, o projeto terá também um impacto continuado no percurso de Boris Charmatz, porque se insere num projeto maior, com paragens noutros países, que irá resultar numa nova criação chamada “Liberté Cathédral” (Liberdade Catedral).
Assim, “[terrain] Lisboa” realiza de forma exemplar alguns dos objetivos mais importantes da Temporada Cruzada, juntando artistas franceses e portugueses num projeto comum que se abre à participação da comunidade e que terá uma continuidade no futuro.

 

Foto: © Álvaro Isidoro / Global Imagens