Camille Decourtye e Blaï Mateu Trias são artistas de circo. Ela, que tem trabalhado com cavalos desde a infância, pratica levantamentos acrobáticos e canto. Ele, filho de palhaço, tornou-se também palhaço e acrobata. Reunidos no Centre National des Arts du Cirque, fundam a companhia Baro d’Evel, em 2000. 

Os espetáculos da dupla nascem sempre de um impulso em direção ao desconhecido. Para o alcançarem, desenvolvem uma linguagem única, que combina movimento, música, voz, matéria em metamorfose e animais. Segundo Camille e Blaï Mateu, a investigação da companhia “não é compartimentada”: todos os artistas, mas também os colaboradores e técnicos, circulam e influenciam-se mutuamente nas suas especificidades criativas. Assim, colocam-se “artisticamente em perigo, à procura de uma arte total”. 

Nos espaços de atuação de Baro d’Evel, “concebidos como caixas de jóias”, os animais em palco trazem um certo relâmpago de emoção. Diante da sua presença, o espetador é atravessado por outra percepção, outro espaço-tempo — algo como um “sonho acordado”. Cada peça é uma cerimónia de reencantamento do mundo, conferindo-lhe uma dramaturgia própria e especial.

No ano em que o coletivo se forma, apresentam a sua performance inaugural, criada para as ruas, “¿Porqué No?”. Em 2003, realizam o seu segundo espetáculo, “Bechtout’”. A partir de então, iniciam um trabalho continuado que dá luz a uma série de novas criações: “Petit cirque au marché” (2005), uma criação para os salões de mercado em Midi-Pyrénées; “Ï” (2006), um solo de palhaçaria de Blaï Mateu Trias; “Le Sort du dedans” (2009), espetáculo de circo itinerante; “Mazùt” (2012); “Les Escapades” (2014), peça para o espaço público; 

“Bestias” (2015), espetáculo de tenda de circo; “The Missing Part” (2015), uma curta-metragem realizada com Salvador Sunyer; “La Cachette” (2016), projeto musical e concerto; “Là” (2018), primeira parte do espetáculo em díptico “Là, sur la falaise”; e, por fim, a sua peça mais recente e segunda parte do díptico, “Falaise” (2019).

No âmbito da Temporada Portugal-França 2022, “Falaise” ruma ao Porto e a Lisboa em estreia nacional. A peça a preto e branco — com oito humanos, um cavalo e alguns pombos — leva-nos ao outro lado da realidade, para o coração de um universo estranho e onírico, onde a vida vagueia no instante do colapso do mundo.