A diretora de cinema, ativista e feminista Sarah Maldoror nasce Sarah Ducados em 1929, no sul da França, filha de mãe francesa e pai emigrante, vindo da ilha caribenha de Guadalupe. Mais tarde, adota o pseudónimo Maldoror em homenagem ao herói de “Os Cantos de Maldoror”, uma das obras seminais da literatura fantástica escrita por Comte de Lautréamont.

Antes de se dedicar precisamente ao cinema, já devotava-se à vida militante: em 1956, torna-se co-fundadora do primeiro grupo de teatro composto apenas por atores, atrizes e artistas negros em Paris, a Compagnie d’Art Dramatique des Griots. Participaram do projeto os seus amigos Ababacar Samb Makharam, cineasta senegalês; o ator Robert Liensol, nascido na ilha de São Bartolomeu; o vocalista haitiano Toto Bissainthe; e Timité Bassori, cineasta, ator e escritor da Costa do Marfim. Após cinco anos com a Companhia, Maldoror deixa a França em 1961, incentivada por Chris Marker, para estudar cinema com uma bolsa de estudos no Instituto Gerasimov de Cinematografia em Moscovo, Rússia. Dali, parte para Argel, capital da Argélia, onde trabalha como assistente de realização em títulos fundamentais para o cinema anti-colonial, como o documentário “Festival Panafrican d’Alger” (1969), de William Klein. 

Nesta mesma altura, realiza as suas primeiras e mais famosas ficções, que denunciam abertamente a violência do sistema colonial português: “Monangambée” (1969), grito angolano que significa “morte branca”, e “Sambizanga” (1973). Em 1970, dirige “Des Fusils pour Banta” (1970), longa-metragem dada como perdida, e alguns documentários em Cabo Verde e na Guiné-Bissau depois das suas respetivas independências. 

Ao longo da sua carreira, foi muito influenciada artística e politicamente pelo poeta Aimé Césaire, um dos mais importantes poetas surrealistas e considerado o fundador da Negritude, movimento cultural, político e social que promovia uma cultura negra associada ao anti-colonialismo, ao marxismo e ao pan-africanismo. Esta nunca deixou de ser a sua maior preocupação e motivação: o estado da arte e da independência africana.

O corpo de trabalho de Sarah Maldoror é uma afronta criativa aos críticos de cinema que presumiam uma filmografia de “terceiro mundo” didática, literal. Tendo desenvolvido uma poética política única, em prol de uma liberdade de inspiração surrealista, fabular, a artista interroga a história da escravatura e do colonialismo através de um cinema praticado como meio de investigação plástica e lírica. Resistência política através da resistência cultural.

Sarah Maldoror nas filmagens de Un Dessert pour Constance (1981).

Maldoror casou-se com Mário Coelho Pinto de Andrade, intelectual angolano e membro fundador do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Com ele, teve duas filhas: Henda Ducados Pinto de Andrade, economista e socióloga, e Annouchka de Andrade, que seguiu os passos da mãe pelo cinema. Em 2012, foi distinguida com a insígnia de Cavaleira da Ordem Nacional de Mérito francesa, atribuída pelo então Ministro da Cultura francês Frédéric Mitterrand.

Sarah Maldoror, a matriarca do cinema africano, faleceu aos 91 anos por complicações decorrentes da Covid-19, no dia 13 de abril de 2020, deixando-nos um eterno legado sobre a luta e a memória de todos e todas aquelas que foram, e seguem, silenciadas. Este ano, a Temporada Portugal-França traz às Galerias Municipais – Torreão Nascente da Cordoaria Nacional a exposição “Sarah Maldoror: Cinema Tricontinetal”, apresentada originalmente no Palais de Tokyo, entre novembro de 2021 e março de 2022. Com curadoria de François Piron, a paisagem dos seus filmes é um convite para descobrir os vários relevos, faces e narrativas desta cineasta imortal.

 

Foto em destaque: © Retrato por Bildjanst-H. Nicolaisen. Cortesia de Annouchka de Andrade e Henda Ducados.